Em 2024, a Samsung já operava mais de 2.000 pontos de contato diretos com o consumidor no mundo, entre lojas próprias, quiosques e centros de experiência. No Brasil, a expansão das lojas físicas ganhou ritmo justamente em um momento em que o varejo de eletroeletrônicos enfrentava margens comprimidas, alta dependência promocional e uma dificuldade crescente de traduzir valor em categorias cada vez mais complexas. Esse movimento não foi um desvio tático, mas um ajuste estrutural no go-to-market da companhia, com implicações diretas sobre como a indústria se posiciona diante do varejo tradicional.
A motivação estratégica: controle de narrativa e captura de valor
A entrada mais consistente da Samsung no varejo D2C não nasce de um impulso oportunista, mas de uma leitura clara sobre a perda de controle na jornada de compra. No modelo tradicional, o varejista multimarca tornou-se o principal intermediário entre a indústria e o consumidor final. Isso trouxe escala, mas também distorções relevantes.
No ponto de venda, produtos de alta complexidade técnica, como TVs com diferentes tecnologias de painel ou smartphones com integração a dispositivos conectados, acabam sendo apresentados de forma superficial. O vendedor, muitas vezes treinado para empurrar giro ou margens específicas, não consegue ou não tem incentivo, para explorar o ecossistema completo da marca. O resultado é uma escolha baseada em preço ou promoção, não em valor percebido.
Para a Samsung, essa dinâmica tinha um custo claro. Ao não conseguir comunicar adequadamente a integração entre seus produtos, do celular à TV, passando por eletrodomésticos conectados, a marca perdia a oportunidade de ampliar ticket médio e fidelização. O consumidor comprava um item isolado, quando poderia estar sendo inserido em um ecossistema.
O avanço para o D2C, portanto, responde a três objetivos centrais. Primeiro, recuperar o controle da narrativa da marca no momento decisivo da compra. Segundo, aumentar a captura de valor por meio da venda cruzada e da construção de um relacionamento direto com o cliente. Terceiro, gerar inteligência proprietária sobre comportamento de consumo, algo limitado no modelo puramente indireto.
Esse movimento também dialoga com uma mudança mais ampla no papel da indústria. Em vez de ser apenas fornecedora de produtos, a empresa passa a atuar como orquestradora de experiência. No caso da Samsung, isso se traduz em um redesenho do seu posicionamento: de fabricante de eletrônicos para provedora de soluções integradas de tecnologia.
Loja monomarca como plataforma de demonstração do ecossistema
A loja monomarca, nesse contexto, deixa de ser um simples canal de venda e passa a funcionar como um ambiente de demonstração técnica e imersão. O principal ativo dessas lojas não é o estoque, mas a capacidade de traduzir tecnologia em experiência tangível.
Diferentemente do varejo tradicional, onde os produtos estão expostos de forma fragmentada, as lojas da Samsung são organizadas por jornadas de uso. O consumidor não encontra apenas uma TV em exibição, mas um ambiente que simula uma sala conectada, onde a televisão conversa com o smartphone, com o sistema de som e com outros dispositivos inteligentes.
Esse tipo de organização resolve um problema central do varejo de tecnologia: a dificuldade de explicar benefícios abstratos. Termos como resolução 8K, taxa de atualização ou integração via IoT têm pouco significado isoladamente. Quando inseridos em um contexto de uso, ganham clareza e relevância.
A demonstração técnica, portanto, torna-se o principal motor de conversão no PDV. Ao permitir que o consumidor experimente o ecossistema de produtos de forma integrada, a loja monomarca reduz incertezas e aumenta a confiança na compra. Mais do que isso, ela amplia o escopo da decisão. O cliente que entra interessado em um smartphone pode sair considerando uma TV ou um eletrodoméstico conectado.
Há também um impacto direto na percepção de marca. Ao controlar completamente o ambiente físico, a Samsung consegue expressar seus atributos de inovação, design e tecnologia de forma consistente. Isso é particularmente relevante em categorias onde a diferenciação funcional é difícil de comunicar apenas por especificações técnicas.
Outro ponto importante é o papel da loja como hub de serviços. Configuração de dispositivos, suporte técnico e treinamento do consumidor passam a fazer parte da proposta de valor. Esse tipo de atendimento não apenas melhora a experiência, mas também reduz fricções pós-venda, aumentando a satisfação e a retenção.
Conversão no PDV e aumento de ticket médio
A lógica de conversão dentro de uma loja monomarca segue parâmetros distintos do varejo tradicional. Em vez de depender exclusivamente de fluxo e promoções, o foco está na qualificação da demanda e na construção de valor ao longo da jornada.
No caso da Samsung, isso se traduz em uma operação comercial fortemente apoiada em treinamento técnico. Os vendedores atuam mais como consultores do que como operadores de caixa. Eles precisam entender o portfólio de forma integrada e ser capazes de identificar oportunidades de venda cruzada.
Esse modelo tem impacto direto no ticket médio. Ao demonstrar como diferentes produtos se complementam, a loja incentiva a compra de múltiplos itens dentro do mesmo ecossistema. Um exemplo claro é a integração entre smartphones e wearables, ou entre TVs e sistemas de automação residencial.
Além disso, a experiência física reduz a dependência de descontos agressivos. Quando o consumidor percebe valor na solução proposta, a decisão de compra deixa de ser exclusivamente orientada por preço. Isso contribui para a preservação de margem, um ponto crítico em categorias altamente competitivas.
A loja também funciona como um laboratório de comportamento. A Samsung consegue observar como os consumidores interagem com os produtos, quais dúvidas surgem com mais frequência e quais combinações geram maior interesse. Essas informações retroalimentam tanto o desenvolvimento de produto quanto às estratégias de marketing e comunicação.
O conflito de canais: tensão inevitável e gestão estratégica
A entrada de uma indústria no varejo D2C invariavelmente gera tensão com os canais tradicionais. No caso da Samsung, esse conflito é ainda mais sensível, dado o peso histórico de grandes varejistas na distribuição de seus produtos.
O risco mais evidente é a percepção de concorrência direta. Se a marca passa a vender diretamente ao consumidor, o varejista pode interpretar esse movimento como uma ameaça ao seu próprio negócio. Isso pode resultar em redução de espaço em loja, menor prioridade na exposição ou até mesmo em renegociações comerciais mais duras.
A Samsung enfrentou esse desafio adotando uma estratégia de complementaridade, não de substituição. As lojas monomarca não foram posicionadas como canais de volume, mas como espaços de experiência e construção de marca. Em vez de competir frontalmente com o varejo, elas atuam como vitrines avançadas do portfólio.
Esse posicionamento é sustentado por algumas decisões práticas. A primeira é a curadoria de sortimento. Nem todos os produtos disponíveis no varejo tradicional estão presentes nas lojas próprias, e vice-versa. Isso reduz a sobreposição direta e cria papéis distintos para cada canal.
A segunda é a política de preços. Manter consistência de pricing evita conflitos desnecessários e preserva a relação com parceiros. Quando há diferenciação, ela costuma vir por meio de bundles exclusivos ou serviços agregados, não por descontos agressivos.
A terceira é o uso das lojas como geradoras de demanda. Ao educar o consumidor e aumentar o interesse pelo ecossistema da marca, a Samsung beneficia indiretamente o varejo parceiro. Um cliente que experimenta uma solução na loja monomarca pode optar por finalizar a compra em outro canal, mantendo o fluxo no sistema como um todo.
Esse equilíbrio exige uma governança cuidadosa. É necessário alinhar objetivos internos, definir claramente o papel de cada canal e manter um diálogo constante com os parceiros. O D2C, nesse sentido, não substitui o modelo tradicional, mas o complementa dentro de uma arquitetura mais sofisticada de distribuição.
Integração entre físico e digital no D2C
Outro elemento central na estratégia da Samsung é a integração entre canais físicos e digitais. O D2C não se limita à loja monomarca, mas envolve um ecossistema que inclui e-commerce, aplicativos e plataformas de relacionamento.
As lojas físicas funcionam como pontos de entrada e de aprofundamento da experiência. Já os canais digitais permitem continuidade na jornada, seja para pesquisa, comparação ou recompra. Essa integração é fundamental para capturar o consumidor em diferentes momentos e contextos.
Um cliente pode iniciar sua jornada online, visitar uma loja para experimentar o produto e concluir a compra posteriormente pelo e-commerce. Ou o contrário. O importante é que a experiência seja consistente e que os dados gerados em cada interação sejam integrados.
Essa visão omnichannel amplia a capacidade da Samsung de personalizar ofertas e comunicações. Ao entender o comportamento do consumidor em múltiplos pontos de contato, a marca consegue construir relacionamentos mais relevantes e duradouros.
Impactos no posicionamento competitivo
A estratégia de D2C via loja monomarca reposiciona a Samsung dentro do varejo de eletroeletrônicos. Em vez de disputar apenas espaço nas gôndolas, a marca passa a competir também pela atenção e pela experiência do consumidor.
Isso cria uma vantagem difícil de replicar por varejistas generalistas. Enquanto estes operam com uma lógica de escala e diversidade de portfólio, a Samsung consegue aprofundar a relação com sua própria linha de produtos, explorando sinergias que vão além da venda unitária.
Ao mesmo tempo, a presença física própria fortalece a marca em mercados onde a decisão de compra ainda é fortemente influenciada pela experimentação. Em categorias de maior valor agregado, a possibilidade de testar e entender o produto antes da compra continua sendo um diferencial relevante.
Esse movimento também pressiona concorrentes a repensarem suas estratégias. Outras indústrias passam a considerar modelos semelhantes de D2C, seja por meio de lojas próprias, seja por formatos híbridos. O resultado é uma transformação gradual na dinâmica do setor, com maior protagonismo das marcas na relação com o consumidor final.
Lições para indústrias em transição para o varejo
O caso da Samsung oferece algumas leituras importantes para outras indústrias que consideram a migração para o varejo D2C. A primeira é que a loja monomarca precisa ter um papel claro dentro da estratégia. Não se trata apenas de abrir pontos de venda, mas de construir um ambiente que traduza a proposta de valor da marca.
A segunda é que o sucesso depende de uma integração consistente entre estratégia, operação e experiência. A execução no ponto de venda, o treinamento das equipes e a coerência da comunicação são fatores críticos para sustentar o modelo.
A terceira é que o conflito de canais não deve ser ignorado, mas gerido de forma estratégica. O D2C precisa ser desenhado como complemento ao ecossistema existente, e não como ruptura abrupta.
Por fim, a captura de dados e a capacidade de gerar inteligência a partir deles tornam-se ativos centrais. O contato direto com o consumidor abre oportunidades que vão muito além da venda imediata, influenciando decisões de produto, marketing e expansão.
A conexão com a expertise da Goakira
Projetos como o da Samsung deixam claro que a transição da indústria para o varejo exige mais do que ambição. É um processo que envolve desenho de go-to-market, definição de papéis de canal, estruturação operacional e criação de experiências relevantes no ponto de venda. Sem esse alinhamento, o risco de conflito, ineficiência e perda de valor é significativo.
A Goakira atua exatamente na interseção desses desafios. Ao apoiar indústrias na construção de suas estratégias de D2C, a consultoria trabalha desde a concepção do modelo de negócio até a implementação no varejo, passando por arquitetura de loja monomarca, desenho de jornada do cliente, estruturação de processos e definição de diretrizes comerciais que preservem o equilíbrio com canais existentes.
Se a sua empresa está avaliando esse movimento, o ponto de partida não deve ser a abertura de lojas, mas o entendimento profundo de como o D2C se encaixa na estratégia de crescimento. A Goakira oferece um diagnóstico estruturado para mapear oportunidades, riscos e caminhos possíveis, com base em inteligência de negócios e experiência prática em diferentes setores.









